Um guia de apoio às famílias


O que sente o feto
 
À descoberta do mundo interior
 
A mulher preocupa-se com o bebé logo a partir do momento em que decide ser mãe. Por isso, adoraria saber o que sente quando está dentro de si: se a ouve quando fala com ele, se gosta da música que lhe põe, se sente dor com os testes de diagnóstico, se sente a sua tristeza ou alegria, se lhe incomoda a luz, se se acalma com as carícias na barriga... Como não fala nem chora, não pode contar o que vê (se é que vê alguma coisa) nem dizer o que gosta, se o acalma quando acaricia a barriga...
 
A verdade é que, apesar de todos os avanços alcançados em medicina, continuamos sem saber exactamente o que sente o bebé dentro do útero materno. As técnicas de diagnóstico pré-natal - como a ecografia ou a monitorização - permitem averiguar parte da vida do feto, sobretudo a sua saúde e evolução, mas pouco em relação aos seus sentimentos ou estados anímicos, que permanecem um verdadeiro mistério.
 
À medida que a gestação avança, é evidente que o futuro bebé vai aumentando os seus movimentos, o que se traduz num progressivo amadurecimento neurológico. E acredita-se que, à medida que se soma semanas de vida, vai amadurecendo os seus sentidos, o que dá a entender que pressente outros mundos sensitivos, ainda que estas suposições sejam só interpretações (já que não puderam ser demonstradas cientificamente). O que sabemos, efectivamente, é que o recém-nascido chega ao mundo com os cinco sentidos desenvolvidos, pelo que eles já existiam quando estava dentro da barriga da mamã.
 
As minhas carícias acalmam-no?
 
O tacto é o primeiro sentido que o feto põe em funcionamento. A meio da gravidez, toda a pele e as mucosas reagem plenamente perante a estimulação táctil, mas já desde o início da gestação o futuro bebé tende a afastar-se das paredes do útero se, casualmente, lhes toca. A partir do sexto ou sétimo mês , se toca na cara com as mãos, aproxima a cabeça delas, abre a boca e chucha no dedo. Também é capaz de diferenciar as texturas das paredes do saco amniótico, do cordão umbilical e da sua própria pele. Já gosta de receber os seus mimos, por isso reage quando acaricia ou pressiona a sua barriga.
 
Vê alguma coisa? A luz incomoda-o?
 
A maior parte do tempo, o feto está com as pálpebras fechadas; abre-as e fecha-as de forma intermitente a partir do sétimo mês, quando já é capaz de as abrir por completo. Mas crê-se que o seu campo visual ainda seja muito limitado. O ambiente intrauterino deve ser tão escuro como silencioso. Ainda assim, sabe-se, por exemplo, que pode aperceber-se se um forte estímulo luminoso atravessa a parede uterina já que reage mudando de posição para se proteger da luz. Entre as semanas 30ª e 34ª, já distingue de onde procede a luz visto que reage se o ecografista coloca um foco junto à barriga da mãe e o muda de posição.
 
Saboreia aquilo que come?
 
Sabe-se pouco sobre as suas preferências gustativas, mas já se verificou como chucha ou suga com certa assiduidade e que engole líquido amniótico de forma intermitente a partir do segundo mês, uma vez que tem a boca completamente formada. Um mês mais tarde, o seu sentido do gosto parece estar já muito desenvolvido. Se sente um sabor doce no líquido amniótico, acelera os movimentos de deglutição, enquanto que se o sabor for amargo, deixa de engolir imediatamente. As sensações que sente são o resultado de como cheiram e sabem as distintas substâncias que o líquido amniótico contém.
 
Consegue ouvir-me?
 
Assim devia ser, já que quando se coloca junto ao abdómen uma cinta gravada com a voz da mãe, a frequência cardíaca do feto aumenta, enquanto se a gravação for de outra mulher, diminui. Mas ouve muito mais coisas. Sabe-se que a audição é um dos sentidos que mais evolui dentro do útero. O feto pode perceber sons procedentes da mãe ou do exterior desde a 16ª semana, ainda que os ouvidos não estejam completamente desenvolvidos antes do sexto mês de gestação. Manifesta-o movendo-se como reacção aos batimentos cardíacos da mãe, aos ruídos intestinais durante a digestão ou à passagem do sangue através do cordão umbilical. Também se sobressalta com as portas a bater e agita-se ou acalma-se de acordo com a música que ouve.
 
Pensa-se que também deva sentir o ruído ecográfico do Doppler, já que quando se aplica desperta-se e mexe-se. Além disso, comprovou-se que os ruídos fortes do exterior, que obviamente chegam amortecidos pelo líquido amniótico, o façam reagir. Quando os ruídos se produzem, muda a sua frequência cardíaca ou mexe-se dando voltas, esticando e encolhendo os braços e pernas ou abrindo e fechando os olhos.
 
Incomoda-se se eu estiver triste?
 
As emoções da mãe provocam alterações hormonais que podem afectar o feto, tanto física como emocionalmente. Está provado que quando a grávida sofre um desgosto marcante e continuado no tempo, libertam-se no seu organismo substâncias tóxicas chamadas catecolaminas que podem provocar o adiantar do parto e fazer com que o bebé nasça com baixo peso. Estima-se que em metade dos partos prematuros a causa esteja no stress materno. Contudo, a prova de que certos estímulos provocam tristeza ou alegria no futuro bebé durante a sua vida no ventre materno é muito difícil de demonstrar.
 
Sente os odores?
 
O olfacto é um sentido muito importante para a sobrevivência do bebé, muito relacionado com o gosto, que o cérebro interpreta de forma similar. Graças ao olfacto, o recém-nascido encontra o peito materno. Como acontece com os sabores, a partir da 12ª semana de gestação o feto familiariza-se com os odores procedentes dos alimentos e as substâncias que a mãe consome, e que serão os que também impregnarão o leite materno.
 
É capaz de sentir dor?
 
Com base em estudos feitos ao sangue do cordão umbilical, comprovou-se que os fetos em situações de stress, por exemplo, ao sentirem a punção de uma agulha no abdómen aumentam a secreção de catecolaminas e afastam-se da ponta da agulha que se aproxima deles. Esta reacção poderá ser um reflexo defensivo ou uma resposta consciente perante uma ameaça. Além disso, quando a sua saúde se altera por alguma razão, os seus movimentos diminuem. A falta de glucose no sangue materno (fome) também está relacionada com uma diminuição dos seus movimentos. E, ao contrário, um copo de sumo açucarado que a mãe bebe desencadeia uma maior actividade fetal. Porém, outras investigações deduzem que não é capaz de captar sensações dolorosas antes do último trimestre de gravidez porque as suas ligações neurológicas não estão plenamente desenvolvidas até à 29ª semana de gestação. Antes disso, o feto não sentirá dor real, ainda que realize um movimento reflexo face a um estímulo doloroso.
 
Dorme e sonha como um bebé?
 
A partir da 28ª semana, o feto intercala momentos de calma (nos quais o coração bate mais lentamente e o corpo repousa) com outros de maior movimento. Ainda que estes períodos de actividade e calma vão e venham sem que exista uma regularidade, faz supor que o futuro bebé sonha. Crê-se que as secreções hormonais da sua mãe, a quantidade de glucose que lhe transmite o seu sangue e, inclusive, o ritmo de vida materno influem nesses períodos. Por volta do oitavo mês, o feto começa a alternar com certa regularidade fases de sono agitado com outras de sono relaxado. Durante as primeiras, os seus olhos agitam-se e gesticula repetidamente. O registo destes fenómenos confirma que o seu cérebro está em plena actividade e conta com todos os instrumentos necessários para sonhar. Mas, como muitas outras incógnitas do mundo intrauterino, o que sonha ou não está ainda por demonstrar. Supõe-se que os novos avanços em diagnóstico pré-natal nos desvendem em breve algumas destas interrogações.
 
Fonte: Bebé d'hoje - Fevereiro 2012